
Muitas vezes tenho pensado na química do beijo na medida em que este acto pode considerar-se uma acção expressiva que manifesta uma união mútua. Sendo a boca o órgão de expulsão do hálito, que sempre se considerou uma manifestação do espírito, o beijo na boca vem a ser, por esta via, uma comunicação de um espírito ao outro. Dai o seu significado amoroso, que é antes de mais espiritual, sem no entanto deixar para trás as suas aplicações erógenas que expressam, noutro plano, a mesma noção para unir.
Naturalmente o beijo torna-se diferente nas suas significações segundo a zona beijada e a ocasião em que este se efectua. Na Bíblia o beijo pode expressar paz e caridade como se verifica em (Gen. 29,13; 45, 15; Ex. 4;27; Rom., 16,15). Mas um caso à parte é o "Beijo de Judas", que formalmente significava o mesmo, no entanto ao dissimular a traição como expressa (Mat. 26,49; Mc., 14,45; Luc., 22,47) ficou para a posteridade como exemplo de insídia, daqueles que acusamos quando nos atraiçoam. No período medieval, o beijo revestiu-se de consequências jurídicas; algumas já conhecidas na antiguidade. Por exemplo: um "beijo casto e mutuamente reverente" era símbolo e vinculo de compromisso matrimonial. Na sociedade feudal a relação de vassalagem contraia-se com cerimónias cheias de símbolos, cujo último acto era um beijo.
Nos inúmeros significados, o beijo pode ser uma prova de boa vontade; paz; pacto selado; boa-fé, companheirismo, reconciliação, afecto ou amor. Nas zonas do Médio Oriente e no próximo Oriente, bem como no cristianismo católico o beijo é uma forma de contacto com objectos sagrados tais como a Kaaba, os ícones, o crucifixo ou as sagradas escrituras, as estátuas e as roupas religiosas. Beijar uma mão ou um pé denota humildade ou pode ser uma forma de solicitar protecção. Apenas o Beijo de Judas simboliza traição.
Modernamente, o beijo só conservou as significações amorosas. Uma das interpretações plásticas mais significativas foi a de Augusto Rodin. A evolução dos costumes, no entanto, com a progressiva trivialização do erotismo ao qual não devemos de dissociar a influência do cinema, determinou uma relativa perca do seu valor: Hoje beija-se, na maioria das vezes somente pela efusão momentânea, já muito distante dos ricos significados originais deste acto. O beijo pode ser, a meu ver, a expressão de um sentimento muito egoísta: o amor... mas felizes aqueles que estejam egoisticamente apaixonados e em comunicação de um espírito ao outro!




































