No passado, pobres eram os sem-terra, os mendigos, os órfãos, os estropiados ou leprosos abandonados; «abria-se-lhes a mão» para um prato de sopa. Hoje, esses ditos aplicam-se às vítimas das injustiças sociais e aos marginalizados, que sempre haverá sejam as sociedades as mais tendencialmente justas e politicamente igualitárias. Embora continue haver esfomeados a quem se deve «abrir a mão», é sobretudo necessário «dar a mão» aos sem-trabalho, aos solitários, aos idosos, aos toxicodependentes, aos imigrantes e aos marginalizados. O lema «Pobres sempre os tereis convosco» torna-se «Marginalizados tê-los-eis cada vez mais».
Até um passado recente, a solidariedade só era obrigatória relativamente aos «nossos», aos «de cá» («do teu pobre em tua terra»). E competia à vizinhança. Hoje há o Estado que assume a resolução dos problemas macro-sociológicos. A partir daqui, a sociedade com, à frente, os políticos, remete a questão para o Estado burocrático. Ora, a solidariedade é um movimento centrífugo, parte do indivíduo para o seu próximo, duma família ou duma rua para a outra, do centro para a periferia. Portanto, esperar que as propostas de solidariedade venham do Estado burocrático é uma maneira de perpetuar as situações de privilégio.
Isto vem a propósito do actual período político e da crise económica em que entrámos. A solidariedade social devia ser uma preocupação prioritária dos municípios. Durão Barroso disse em 17.2.2002: «Comigo, não heverá um novo europorto internacional enquanto houver crianças à espera, três anos, para serem operadas». Os candidatos às autarquias - donde deviam partir os movimentos de solidariedade social - deviam ter como regra: «Conosco, não haverá uma nova estrada ou rotunda, um novo centro cultural, mercado, biblioteca ou edifício da Câmara, campo de futebol, renovação dum jardim ou instalação de um qualquer efeito estético-urbano, enquanto houver no nosso concelho um desempregado sem meios de subsistência, uma família sem luz, gaz ou água, uma criança sem creche, um idoso sem lar, um doente sem assistência, um toxicodependente sem apoio...». E cumprir.
Também alguém devia propor às Igrejas que se reclamam de Jesus Cristo, grandes e pequenas, que mandassem às urtigas o seu curriqueiro palavreado esotérico-moralista, sexista, discriminatório (que não é de origem mas criado pela História) e apontassem para o fundamento do Cristianismo, o seu sinal distintivo - «a religião do amor» - e que podia fazer dele a religião do futuro: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo»; por «próximo» entende-se um necessitado qualquer, que pode ser um estrangeiro ou de outra religião (Lucas 10:25-37). Querem melhor? Alguém disse: «Se a Igreja católica tivesse orientado para a luta contra a pobreza os esforços que tem feito na repressão da sexualidade [família e casamento tradicionais, moral conjugal, celibato dos clérigos...] já não havia pobres no mundo cristão». Imagine-se o mesmo direccionamento dos dinheiros gastos em obras materiais (novas igrejas de luxo, pompas religiosas...). O mundo seria muito menos pobre.
Constatamos mudanças na linguagem da Igreja católica; a expressão «solidariedade social» começa a ressaltar; um bom indicador. Nas políticas municipais, por enquanto, o que vemos sobretudo é desperdício dos dinheiros públicos em obras públicas de luxo... num país de miséria.









Acoitar: é um termo do princípio da nacionalidade e está unido ao povoamento. Na Idade Média o repovoamento do território português foi feito, em parte, à custa de criminosos/homiziados. Estas pessoas adquiriam liberdade e deixavam de ser perseguidas pela justiça se fossem viver para os territórios conquistados, dos quais alguns eram coutos. Esta medida tinha o efeito daquilo a que hoje podemos designar de reinserção social. Os criminosos tinham assim a oportunidade de voltar a fazer as suas vidas sem serem perseguidos pela justiça e tinham ainda porções de terra doadas como aliciante suplementar para se fixarem. No entanto não devemos esquecer que essas zonas designadas por couto eram por vezes zonas fronteiriças e, em caso de invasão, eram estes colonos o primeiro escudo a travar as investidas do inimigo. A instabilidade pelas algaradas constantes de muçulmanos e de cristãos, incitaram os reis a instituir estas zonas de liberdade aparente. Para os homiziados a liberdade tinha este preço.
Acoitar: Se a norma que referimos pode ser exemplo até ao séc. XIV, uma outra surge já com a consolidação nacional e os termos couto ou acoitar-se relacionam-se agora também com os espaços religiosos, igrejas, mosteiros, ermidas e seus espaços envolventes. Nestes lugares os homiziados fugidos à lei podiam encontrar protecção legal contra a justiça secular, como bem prescrevem as constituições sinodais. A justiça secular não podia prender nenhuma daquelas pessoas acoitadas naqueles lugares, salvo crimes de sangue. Ao acoitar os homiziados, os templos e espaços envolventes tornavam-se lugares muito mal frequentados e de gente “rasteira” e de “baixa-mão” . Aí vivia, anos atrás de anos todo o tipo de marginais construindo pequenos “bairros” que iam crescendo com o passar do tempo. Alcobaça não foi excepção: a primeira “urbanização”, feita no lugar depois da instalação dos monges, junto ao mosteiro, foi obra e engenho de foragidos.






