segunda-feira, dezembro 31, 2007

FELIZ ANO DE 2008


Hoje mesmo não há muito tempo passei ao lado deste pastor de cabras Sr. António Domingues, no Casal do Pereiro, perto da Póvoa na freguesia de Cóz. Quando o vi recordou-me certos momentos da minha infância quando noutro lugar, Turquel, do mesmo concelho de Alcobaça, havia muitos pastores de cabras, que passavam com os seus rebanhos pela aldeia. Para todas as crianças era um privilégio verem de vez em quando a povoação ser atravessada por estes animais guiados por um pastor que mantinha com as cabras um “dialecto” que elas bem entendiam. Fazia-nos crer ainda mais nas histórias que os adultos contavam sobre “o tempo em que os animais falavam”. Fantasias que na actualidade a Walt Disney explora na época do Natal. Nestas histórias há sempre, por detrás, uma moral que normalmente representa a velha luta entre o Bem e o Mal.

No caso de pastores, uma das histórias mais antigas, senão a mais antiga, é a história de Abel e Caim da Bíblia. Simbolizam respectivamente por um lado a pastorícia e o sentido de liberdade e o desapego à terra através da vida nómada representada em Abel, e a vida na cidade com vinculo à urbanidade, o apego à terra e à propriedade privada derivado da vida sedentária originada pela agricultura, e simbolizada em Cain. O primeiro fez um sacrifício, com carne animal que foi aceite por Deus e o segundo fez outro, com produtos agrícolas que foi rejeitado. A rejeição do sacrifico de Cain, provocou no irmão de Abel o ciúme e o ódio que o fez assassinar pelo irmão.




Estes dois personagens bíblicos eram filhos de Eva e para muitos exegetas por detrás desta história está precisamente dois modos de vida diferentes com consequências sociais igualmente diferentes e estruturantes no devir da humanidade. O sedentarismo provocou o nosso modo de vida actual: a cidade e o sentido da propriedade. Foi o desapego à ideia dos bens materiais derivado do nomadismo que Cain finalmente matou. Por isso na exegese bíblica Abel é sempre associado à ideia de justo e Cain à ideia de maldade. Por outra parte é a dicotomia entre espiritual e material os verdadeiros factores de toda a discórdia humana que têm resultado nas maiores guerras que a humanidade concebeu. Nos dias de hoje a globalização vem de novo pôr em confronto ABEL(istas) e CAIN(istas), com modernas configurações nesta era da globalização.

Foi esta história muitas vezes contada pelo meu avô materno, que este pastor cujas fotos mostro, me fez recordar com as suas sete cabras, cujas campainhas penduradas ao pescoço tilintavam no silencio imaculado que é ainda possível de sentir nos campos da Póvoa.




Depois de pedir para fotografá-lo, coisa que acedeu naturalmente, confessou-me na sua voz sonante, plena de saúde e força telúrica que ser pastor é um “vício maior do que qualquer outro”. Por diversas vezes tentou deixar a actividade, mas o apelo aos animais e o sentido à liberdade que é andar atrás dos animais são impagáveis. Das muitas coisas que conversamos, sobre a vida dos animais, como se comportam, o tempo, as chuvas, as flores as aves - o senhor é verdadeiramente uma biblioteca viva – perguntei-lhe como vivia com as suas sete cabras?




Contou-me que brevemente terá outras tantas e já chegou a ter 70, mas como as coisas não estão bem vendeu-as, porque “é preciso ter muitos papéis e escrever em muitos papéis quer para comprar uma cabra, vender leite ou fazer queijos...as coisas hoje em dia estão mais difíceis para ser pastor, e depois é o pouco que nos dão por isso. Eles não sabem o trabalho que isto dá”.



Ia dizendo isto ao mesmo tempo que “conversava” com as “chibinhas” dirigindo-lhes palavras e sons que elas entendiam na perfeição. Foi fácil tornar-me amigo do Sr. António que me convidou a fazer uma viagem com as suas cabras pelos montes e vales da Póvoa. Acedi e marcamos para a próxima Primavera.




Simples mas solidária e fraterna
é com esta pequena homenagem a este pastor meu conterrâneo que desejo às pessoas da minha terra,
aos meus amigos, ao meus conterrâneos
e a todos os leitores e comentadores deste blog


UM EXCELENTE ANO DE 2008.

domingo, dezembro 23, 2007

FESTAS FELIZES




Ilustrado num pequeno “tour” por Alcobaça, à noite, desejo a TODOS VÓS as maiores felicidades desta Quadra Festiva... HOJE E SEMPRE !









FELIZ ano de 2008.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

OS IMIGRANTES REGRESSAM A ALCOBAÇA


A Racionalidade e a sensibilidade como idiomas da convivência humana têm léxicos diferentes. O primeiro domina o segundo e normalizou as relações humanas tornando-se na língua franca do nosso quotidiano, e não reconhece o segundo idioma, ou se o reconhece é como dialecto exótico, digno de referência etnografia de mentalidades atávicas que os gestores da racionalidade preservam apenas como facto museológico. Numa época caracterizada pela ideia da memória, a sensibilidade mas também a ética transformaram-se numa espécie de arqueologia do espírito humano a que os primeiros recorrem quando no seu idioma não existem termos para definir novas áreas de construção ou exploração na sua Babel de números. Para isso tomam da linguagem dos segundos termos para construções de ideias e de factos que não são da sua. Denegrindo assim o idioma dos segundos pelo uso travestido dos termos no léxico dos primeiros. Colonizados e humilhados os autóctones do segundo idioma sobrevivem cada vez mais isolados nos ghettos do silêncio olhando mudos para a sua paisagem interior, como refugio de dignidade, por oposição aqueles que não a têm. Esta aos pouco está a transformar-se em terra de ninguém e em êxodo massivo vão partindo para os países da representação, do faz de conta onde para comunicarem têm de se envergonhar ou rirem-se de si mesmos, com desdém ou então adoptam a nacionalidade do vale tudo numa prática de sobrevivência cada vez mais corrente entre os primeiros. Nas ultimas eleições autárquicas em Alcobaça, os dois únicos vereadores eleitos pela oposição ao executivo PSD, imigraram para exercer actividades politicas noutras paragens. Segundo consta um foi para assessor de um qualquer Secretário de Estado e o outro tornou-se Adjunto do Presidente de Câmara da Marinha Grande o qual, recentemente o PCP/CDU obrigou a demitir. Ao que parece num processo nada edificante para este respeitado partido. Foi deste modo que ambos vereadores alcobacenses honraram os compromissos para com quem os elegeu e demonstraram também eles que Alcobaça é de facto a sua TERRA DE PAIXÃO. Agora em época de Natal e com o espírito de bons imigrantes que são, ai estão eles de regresso para se juntarem à família Alcobacense na noite da consoada...será para ficarem?

sábado, dezembro 15, 2007

TRATADO DE LISBOA

Uma festa histórica, mas sem cidadãos

Assim dava a noticia o Jornal espanhol El Pais , com esta imagem e titulo sobre o Tratado de Lisboa . A notica suscitou-me a seguinte pergunta:
E se o Tratado de Lisboa ao invés daquilo que se supõe seja afinal uma mera campanha para a promoção da Cidade , naquilo que se designa em gíria económica “MERCADOTECNIA” de cidades?
PS. O conceito de mercadotecnia de cidades s foi uma ideia desenvolvida por Manuel Castell nos anos 90. O sociólogo argumentava que as cidades para sobreviverem como espaços sociais e económicos rentáveis, teriam de trabalhar em rede desenvolvendo uma enorme capacidade de acção através das TIC’s. Assim as cidades, as suas empresas e cidadãos dependeriam delas. Segundo Castell , quem não assimilasse as TIC's restava-lhe o limbo da civilização e era para lá que todos os meios urbanos eram "empurradas" e "condenadas", numa especie de neocastigo para um neoinferno de não existencia no paraiso do reino neoliberal. Nunca soube se este sociólogo que foi um guru muito em voga nos anos noventa e, diga-se de passagem com bastante interesse se tinha como “Sponsors”, multinacionais de computadores ou de tecnologia informática surgidas igualmente na decada de noventa, no Vale do Silício (Silicon Valley) . A verdade é que as suas ideias apesar de atrasadas em Portugal, chegaram com força à INDIGENAYLÂNDIA Lusa e quase vinte anos depois, apaixonaram os nossos governantes . Agora nos seus discursos nenhum é capaz de articular três palavras seguidas sem utilizar chavões como “trabalhar em rede”, “ mais valia” e “ tecnologias da informação”. Até o acordo de Bolonha enfatiza parte destas ideias...sinceramente continuo a não saber quem quererá vender computadores .

Ps. Sobre o tratado ver ainda o EL PAÍS de ontem.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

"HÁ MOSQUITOS QUE TÊM DE SER AFASTADOS DA VIDA PÚBLICA"







Ao contrário do habitual, farei um desvio nos temas das minhas crónicas para comentar uma frase do presidente da câmara de Alcobaça (Dr. Gonçalves Sapinho) merecedora de observação, porque, como crítico que sou em relação às políticas daquele elenco camarário, sinto-me atingido por ela, em virtude de me sentir incluído no grupo a quem ele se referia. O presidente da Câmara de Alcobaça não se destaca pelo seu temperamento democrático para com quem discorde dele, não admite outra voz que não seja a sua, tem horror ao silêncio e, se não se ouve falar a si mesmo, deixa de existir. Um caso muito comum e típico na politica de certas pessoas “construídas” na tirania, nomeadamente na América Latina.

Em Alcobaça impera o medo das pessoas se expressarem livremente, facto que é compreensível se tivermos em linha de conta que a terra padece daquilo que em gíria sociológica, ou mesmo antropológica se designa por “espírito de freguesia” ou “conspiração do adro”. Uma realidade bem enquadra nas características físicas e culturais de certas pessoas de Alcobaça.

As ciências sociais e humanas, tal como a investigação, têm como objectivo tornar mais compreensível o meio em que se vive, e cabe ao investigador ajudar a descobri-lo. O investigador que vive nesse meio ou conhecendo-o, toma uma moderada distância e dá um passo atrás para poder examinar melhor as atitudes, os discursos e as suas práticas, e mede as forças que se encontram na sua estrutura social. Um trabalho que é meticuloso e paciente e, quando é generoso, ajuda a entender as categorias, aspectos e raízes que impulsionam as acção de uma comunidade. Como estudo ou opinião, dão a mediação critica que apoia a compreensão do quotidiano mais imediato, no sentido de poder melhorá-lo ou corrigi-lo.

No entanto a acção quotidiana e o discurso político ou institucional que a conduzem são habitualmente hostis à atitude reflexiva. Aquelas impõem-se pela demagogia, o espectáculo ou o efeito, para criar suposições, sem olhar a custos ou sem investigar causas e efeitos, como é norma em sociedades pouco evoluídas que sobrevivem de subsídios ou fundos, quase como caridade externa. Nestes casos a acção quotidiana e o discurso normativo assentam no protagonismo de um patriarca que, por norma é, nos meios pequenos, um inculto e um “saloio deslumbrado”, como dá a entender ser o presidente da câmara de Alcobaça, pelas atitudes que o têm caracterizado. Mente sistematicamente, como foi acusado por um presidente de junta e afirmado em jornais locais. Não declarou os impostos durante sete anos e desculpou-se dizendo que foi para umas termas. Chama “talibans” aos turistas que visitam Alcobaça. Gasta o dobro dos dinheiros e compromete o futuro do concelho numa “reconfiguração urbanística”. Gabou-se que dorme nas viagens de trabalho. Não se preocupou com a população, no sentido de a defender na eventual passagem do TGV por terras do concelho e, ainda é grosseiro no trato para com aqueles que o contrapõem, como expressa o título deste texto decalcado de uma sua afirmação publicada no Região de Cister 2/11/2007.
Neste aspecto, os jornais de Alcobaça são verdadeiras fontes para entender o espírito tacanho que governa o Concelho, pois parece que, quanto mais ignorantes são alguns dos políticos locais (em Alcobaça estas palavras são sinónimas), mais eles gostam de sair nas páginas da imprensa local dando corpo àquilo que em gíria se define pelo “jet set provinciano”...
Talvez seja por isso que o discurso sossegado e paciente, ou a informação elaborada, se convertem numa necessidade que tem, no entanto, o inconveniente de causar amargos de boca a este fenómeno social que são os políticos do calibre do Dr. Sapinho e quem o sustenta. Os propósitos do Dr. Sapinho são apenas poder, sem base ideológica ou politica, sem escala de valores ou ética que lhe dê sentido, conteúdo e transcendência. Como no ditado popular que refere “entra mosca ou sai asneira”, com este político, cada vez que abre a boca, “sai asneira e saem mosquitos”. Artigo publicado no Jornal de Leiria em 6.12.2007


Lamenta-se que o presidente da Câmara de Alcobaça chame nomes aqueles que discordam das suas ideias e praticas politicas e afirme que os críticos têm de ser AFASTADOS DA VIDA PUBLICA. Creio que nem Hugo Chaves ou Putin, só para dar estes exemplos, ousariam ser tão primários ou terem a veleidade de afirmações semelhantes. Uma vez mais se demonstra o tipo de pessoa a quem o concelho esta entregue bem como o seu genuíno nível INTELECTUAL, CULTURAL E MORAL... O nível deste politico do PSD e também das figurinhas de papel do mesmo partido que o “coadjuvam” no governo do concelho e no sustento destas afirmações.

segunda-feira, novembro 19, 2007

EM VIAGEM




Estou fora mas tentarei actualizar esta postagem conforme a disponibilidade.

Boa semana.

Adoro viajar! É uma actividade que exerce em mim uma enorme atracção. Ajuda-me a narrar historias sobre o que vejo e não conheço e a teorizar para perceber o mundo e a realidade que são cada vez mais globais e menos locais.

Por imperativos académicos o meu destino foi Bilbau, cidade peninsular posta de moda nos últimos tempos. Esta postagem pretenderá ser uma espécie de crónica de viagem, mantendo deste modo vivo os Ecos nos dias de ausência. A diário colocarei novas imagens e textos nesta mesma postagem.


Gijón dias 19/20

Fui a Gijón pelos mesmos motivos que vim a Bilbau (questões académicas). Esta cidade asturiana esta a 300 km de Bilbau e é também uma cidade de características marítima. Da Janela do hotel onde fiquei: Hotel Astúrias, um clássico da cidade situado na praça Mayor. Desfruta-se uma magnífica vista sobre o mar e a praia mas essas vistas são muito mais aprazíveis pelo passeio construído ao longo da orla marítima. É com algumas imagens da Baia e arquitecturas da cidade que vos deixo por agora. Num apontamento simples.





Janela do quarto no Hotel Asturias. Fui despertado pelas nove numa manhã um pouco cinzenta, sem chover.



Vista parcial do passeio marítimo com um ar nubledo e cinzento.



A cruz acaba por ser um elemento simbólico muito presente na iconografia de Gijon mas também em todas as Asturias.



Pessoas a contemplarem o mar que estava muito bravo neste dia 20: são mais ou menos as 11h da manhã.


Vista do mesmo passeio tal como as imagens seguintes.





PAUSA!




Retemperar forças com um Rioja reserva acompanhado por um "pincho" por acaso muito gostoso. Num bar muito curioso chamado O Convento, decorado apenas com iconografias de santos e paramentos de igreja.

Detalhe do bar.


Roupas de padres para cerimónias religiosas.

Há, por estes dias, o festival Internacional de Cine de Gijón. Como em anteriores mostras tem um programa muito interessante com a vinda de actores e realizadores de renome.

Edificio do Banco de Gijón

Um edificio carateristico da cidade, junto a um espaço de aluguer de bicicletas para visitar a cidade. (COPIEM A IDEIA)


Gosto de visitar os mercados e ver montras, tanto uns como as outras, dizem-me muito de aspectos muito concretos de uma cultura tais como a higiene e os seus graus de saúde publica, pela forma como mostram os alimentos e pela limpeza dos espaços onde eles se exibem . As montras uma pouco dos hábitos e estética dos seus habitantes e a cultura em geral. Esta é uma imagem de um dos mercados da cidade designado por "Mercado del Sur".

LIMPIAS (Cantabria) 21.10.2007


Depois do regresso de Gijón, acordei pela manha e, após tomar o pequeno almoço nao resisti em dar um passeio pelo "muelle" e ver o ambiente natural que tanto me tem inspirado para alguns dos texto que já publiquei neste blog e algumas das imagens que os têm ilustrado. O lugar é de protecçao ecologica onde muita gente vem aos fins de semana mostrar às crianças as aves e especies protegidas que por aqui habitam ou estao de passagem. Foi assim que encontrei Limpias faz quinze anos, quando vivia permanentemente em Espanha tendo-me mudado de Bilbau para este lugar que considero um paraíso.

Vistas da janela do quarto

Passeio junto à ria

Passeio junto à ria

Barcos de recreio

Paisagem

Barcos de recreio

Barcos de recreio

Pequeno afluente no rio Assón

Ao fim de uma hora, depois de desfrutar destas paisagem natural e ímpar longe de qualquer reboliço, voltei para casa a fim de continuar a trabalhar nos meus afazeres.

sábado, novembro 17, 2007

ESTADOS TRADICIONAIS OU PRÉ-MODERNOS


PORTUGAL É UM PAÍS QUE DESFRUTA DUMA AFIRMADA COESÃO NACIONAL E SOCIAL NO ENTANTO NÃO PRIMA PELA JUSTIÇA SOCIAL NEM PELA JUSTIÇA POLITICA, E NÃO PODEMOS AFIRMAR PEREMPTORIAMENTE QUE SEJA UM PAIS DE DIREITO. UMA DAS PROVAS É O MAU FUNCIONAMENTO DA JUSTIÇA


bom fim de semana.

terça-feira, novembro 13, 2007

FRADES NO GERAL E OS DE ALCOBAÇA EM PARTICULAR


São Bernardo e a virgem
Alonso Cano. Museu do Prado

O texto que se segue foi deixado pelo Jorge Casal como comentario à postagem anterior, por considerá-lo pedagógico ,decidi fazer dele uma postagem. O Jorge editou-o igualmente no blog: Cultura Popular.

" Há hoje uma visão romântica da vida monástica que leva a pensar que, dentro dos muros dos conventos, era só pureza, oração, bondade e rectidão. Esquece-se que o conceito moderno de «vocação religiosa» podia não existir. Ia-se para o convento para fugir ao trabalho assalariado, à miséria económica, ao previsto abandono na velhice e às previsões de doenças sem assistência. No «mundo» (na vida secular) não havia protecção social nenhuma contra a pobreza, a doença, a velhice, o desemprego, o abandono familiar, a orfandade, etc. O convento era um reduto de «alta protecção», a todos os níveis. Ainda nos anos 50 e 60 do séc. XX se ia para os conventos para superar as previsões de miséria. Um frade era um privilegiado, «um senhor», um príncipe, face à dureza das condições do meio social que envolvia o convento.Sobretudo, não esqueçamos que, desde a Idade Média até ao sec. XIX, os conventos também eram o local onde os pais depositavam os filhos/filhas que eles deserdavam, ou 1) porque vigorava o sistema do morgadio (só um filho/filha herdava o património) ou 2) porque, sendo o património escasso, «não chegava para todos». Então, alguns tinham de ir para um dos inúmeros mosteiros (os pais é que decidiam qual deles tinha esse destino, e qual o mosteiro... e não se podia desobedecer aos pais)..Depois havia as filhas aí postas à força para as contrariar nas suas escolhas matrimoniais. Os mosteiros de mulheres eram sobretudo sítios de sequestro das raparigas desobedientes. Isso aparece em toda a literatura do passado. Pelo efeito destes vários factores, no séc. XVIII 10 % da população portuguesa residia nos conventos. A fuga do convento era punida com prisão, excomunhão e banimento. O frade «egresso» (fugido) tornava-se um vadio anónimo que ia engrossar as quadrilhas de ladrões de estrada. Conclusão: um convento era um sistema de protecção social contra a miséria, a doença e a velhice para uns, um destino inelutável para outros, e uma prisão para a maioria. Também havia muitos delinquentes que ingressavam «nas ordens» para fugir à justiça. (não havia Polícia Judiciária como hoje nem Interpol... ) enquanto os conventos não podiam ser investigados pelas autoridades policiais ou civis).A partir destas condições sociais, um mosteiro era um refúgio de inúteis, preguiçosos, frustrados, réprobos, com - como é evidente - algumas «almas boas» pelo meio. Não admira que também houvesse traficantes de toda a ordem. A vida no interior não era «pera doce»: os conluios, as tramóias e as manigâncias de uns contra os outros, tanto os havia nas aldeias como nos mosteiros. Um convento podia ser um saco de gatos, um ninho de cobras ou um cesto de lacraus. Desde os sécs XVII.-XVIII, a vida monástica entrou em decadência acelerada. Os frades já não viviam exclusivamente nos mosteiros. Muitos passavam as noites nas tabernas e no fado. Muitos passavam os dias nas casas particulares, auto-nomeavam-se «educadores ou confessores da mocidade» ou dos ricos, das suas senhoras ou filhas, etc. E, se os da casa que não aceitassem o confessor intruso, eram denunciados à Santa Inquisição como… «luteranos» (facílimo levar alguém à fogueira!). Outros vagueavam pelas ruas das cidades, inclusivamente a provocar os (melhor: as) transeuntes. Ou, ainda, percorriam o País (dum mosteiro a outro) usando as estalagens (sem pagar) ou assaltando as propriedades. Enfim, para não me alongar sobre este sub-mundo de parasitas, proponho a leitura dos «relatos de viagens» dos escritores estrangeiros, nos sécs. XVII e XVIII, publicados pela Biblioteca Nacional («Série: Portugal e os Estrangeiros») no que eles se referem aos frades e ao clero.Espero que os românticos defensores da pureza monástica me apontem meia dúzia de monges de Alcobaça - só meia dúzia, desde a fundação até ao fecho - que se tenham notado pela sua santidade.. mas a verdadeiramente cristã, incontestada, sem mácula, a do amor ou abnegação ao próximo"


domingo, novembro 11, 2007

OS MONGES DE CÍSTER E A PROTECÇÃO DE CRIMES (SEC. XVIII)


Lisboa em 1755 sofre um enorme tremor de terra que a destruiu em grande parte. Era então ministro de Portugal o Marquês de Pombal e caiu sobre os seus ombros a tarefa de restabelecer a normalidade da capital Também teve a responsabilidade de reconstruí-la. Imaginem o que seria aqueles dias seguintes à tragédia em que havia muitas emoções descontroladas: umas para gerir e outras para consolar. Gente sem casa, sem comer, as actividades económicas estavam estranguladas. Havia sinistrados de todo o tipo para socorrer, milhares de mortos para enterrar. O perigo de epidemia era eminente. Tinham de tomar-se medidas urgentes no sentido de racionalizar e distribuir os viveres e todo o tipo de recursos essenciais. Evitar os roubos e açambarcamentos e o contrabando para que a situação não se torna-se insustentável. Em jeito de síntese estas foram parte das medidas tomadas pelo marquês que mesmo assim teve de fazer valer a mão de ferro para castigar exemplarmente as veleidade de alguns oportunistas da situação.

Muita da impopularidade deste estadista, sobretudo em certos meios, surge pela via do ressentimento dalgumas camadas sociais, já que para estabelecer a ordem social num momento de particular transcendência no reino, teve de actuar contra os seus privilégios.

Como pessoa carismática e de convicções não pensava duas vezes, ao contrário dos políticos dos nossos dias, já que não estava limitado por estratégias de partido nem por alianças, nem utilizava discursos circulares adornados com sorrisos pepsodente repletos de interjeições com sins ... talvezes... acho que ...vamos ver .... ou frases tipo: “ a Planificação central sistemática... A Flexibilidade, dimensional equilibrada... ou a Estratégia, funcional combinada..., que além de não dizerem rigorosamente nada, são ainda sistemas de linguagem complicados que facilitam o distanciamento e o respeito dos ignorantes a quem as profere e conferem fama de doutos a quem assim se expressa. Mas o seu alcance ou conteúdo é absolutamente nulo.

Para os exegetas da cultura fica a dúvida se foi o terramoto que fez sobressair o papel do marquês ou se esta catástrofe bloqueou a sua acção, no sentido de fazer reformas muito mais profunda que alterariam por completo as estruturas culturais do pais. A questão surge sempre porque a cultura política social, económica e cultural iniciada por ele, não criou escola e após a sua destituição assistiu-se ao fenómeno que em linguagem freudiana se designa pelo regresso dos recalcados.

Das muitas medidas que tomou, algumas pretendiam acabar com determinados aspectos de imunidade que a igreja católica possuía, sobretudo em relação aos delinquentes, dado os espaços dos templos serem também zonas francas para albergue de certo tipo de criminosos, onde a lei secular não se atrevia a entrar. Aí gozavam de plena imunidade! Imaginem o que seriam aqueles lugares frequentados por este tipo de gente, como as constituições sinodais nos revelam e os negócios negros que ai se faziam à conta de roubos e tráficos de determinadas mercadorias. Os espaços deviam de ser comparáveis aos Casais Ventosos da actualidade onde até se permitiam construir barracas para viverem. A sociologia do crime tem muito que estudar em Portugal, e em Alcobaça nunca se ouviu falar sobre a história da sua criminologia.

A nota que hoje publicamos é o original de uma carta enviada pelo Marquês de Pombal ao abade do mosteiro e expressa medidas que o governo de Sebastião Carvalho e Melo tomou a seguir ao terramoto, para limitar a acção criminal dos que nele se acoutavam. Penso que a carta seria uma norma para todos os espaços religiosos do pais.

Na sociedade do antigo regime as cumplicidades entre a igreja e determinado tipo de crimes são muitas. Além dos aspectos daqueles espaços religiosos serem de protecção para homiziados. O delito de contrabando foi praticado por algumas ordens religiosas devido ao monopólio que tinham de certo tipo de comércios, provenientes de colónias na América latina, África, Índia como por exemplo a companhia de Jesus. Em Espanha, França, Inglaterra e Itália, este tipo de investigações há muito que não são nenhuma novidade e são um meio mais de se conhecer as estruturas e o dia da sociedade do antigo regime. A ordem de Cister segundo creio tinha domínio sobre os portos da Nazaré e S. Martinho. No século XVII e XVIII a grande mercadoria de contrabando era o tabaco.

Cópia de uma carta que em nome de sua majestade mandou ao N.Rmo. o secretário de Estado Sebastião e José de Carvalho

“Sua majestade com o urgente motivo da devassidão , e que contra as suas leis, e ordens e contra antigos forais e estabelecimentos das alfândegas destes reinos se tem escandalosamente repetido o delito de contrabando; buscando-se asilo para ele até em alguns conventos e casas religiosas: para mais eficazmente obviar um crime tão e prejudicial ao seu real serviço, e a o bem público dos seus vassalos: foi servido acrescentar as suas providencias que antes havia dado sobre esta matéria, proibindo e ordenando ao mesmo tempo ; não é por via de jurisdição; e mas sim de direcção e de necessária defesa dos seus vassalos, e de conservação e do bem comum dos seus reino: que nem ainda nos conventos e casas religiosas se recolhão e os ditos contrabandos e os contrabandistas, que os fazem: e quem nos casos de contravenção e possam os ditos conventos e casas religiosas, onde se recolherem os mesmos contrabandos e contrabandistas ser buscados não só pelo juiz conservador geral da junta de comercio; mas também pelos outros ministros criminais, perante quem se denunciarem os contrabandos, para fazerem as oportunas apreensão nas mercadorias descaminhadas, e nas pessoas dos descaminhadores: casos nos quais os eclesiásticos que houverem dado favor aos ditos contrabandos; serão pela primeira vez exterminados quarenta léguas fora dos lugares em que os tais casos sucederem; pela segunda vez removidos para a distancia de oitenta léguas dos mesmos lugares e pela terceira vez serão lançados fora destes reinos, como incorrigivelmente prejudiciais ao bem comum deles, e ao sossego publico, que resulta observância das leis , a que os mesmos eclesiásticos costumes e devem de dar os mais louváveis exemplos. e tudo o referido manda S. Majestade participar a V. Pe. Rma. esperando da religiosidade e do zelo de V.Pe. Rma. que assim o fará observar inviolavelmente a todos os seus súbditos e muito especialmente aos prelados locais; declarando-lhes expressamente que serão eles os responsáveis nos casos de recolherem nas casas e conventos da sua administração os referidos , ou quais quer outros criminosos com o escandalo que resultaria da contravenção não só deste aviso; mas de todos os outros que ao governo ao governo da religião de V. Pe. Rma. se tem feito sobre esta matéria em repetidos actos desde o reinado do senhor dom Pedro segundo até agora os quais avisos V.Pe. Rma. mandará renovar com este nos livros dos registos modernos de todas as casas da sua filiação para se excitar assim melhor observância do conteúdo neles”.

A carta vem de Belém com datado de 25 de Novembro de 1757. e é assinada por Sebastião José de Carvalho e Melo. e dirigida ao D. abade da congregação de S. Bernardo” B.N.L. Cod. Nº. 720. Folha 19 (reservados)
António Delgado: in semana cisterciencse 1999.