domingo, novembro 11, 2007

OS MONGES DE CÍSTER E A PROTECÇÃO DE CRIMES (SEC. XVIII)


Lisboa em 1755 sofre um enorme tremor de terra que a destruiu em grande parte. Era então ministro de Portugal o Marquês de Pombal e caiu sobre os seus ombros a tarefa de restabelecer a normalidade da capital Também teve a responsabilidade de reconstruí-la. Imaginem o que seria aqueles dias seguintes à tragédia em que havia muitas emoções descontroladas: umas para gerir e outras para consolar. Gente sem casa, sem comer, as actividades económicas estavam estranguladas. Havia sinistrados de todo o tipo para socorrer, milhares de mortos para enterrar. O perigo de epidemia era eminente. Tinham de tomar-se medidas urgentes no sentido de racionalizar e distribuir os viveres e todo o tipo de recursos essenciais. Evitar os roubos e açambarcamentos e o contrabando para que a situação não se torna-se insustentável. Em jeito de síntese estas foram parte das medidas tomadas pelo marquês que mesmo assim teve de fazer valer a mão de ferro para castigar exemplarmente as veleidade de alguns oportunistas da situação.

Muita da impopularidade deste estadista, sobretudo em certos meios, surge pela via do ressentimento dalgumas camadas sociais, já que para estabelecer a ordem social num momento de particular transcendência no reino, teve de actuar contra os seus privilégios.

Como pessoa carismática e de convicções não pensava duas vezes, ao contrário dos políticos dos nossos dias, já que não estava limitado por estratégias de partido nem por alianças, nem utilizava discursos circulares adornados com sorrisos pepsodente repletos de interjeições com sins ... talvezes... acho que ...vamos ver .... ou frases tipo: “ a Planificação central sistemática... A Flexibilidade, dimensional equilibrada... ou a Estratégia, funcional combinada..., que além de não dizerem rigorosamente nada, são ainda sistemas de linguagem complicados que facilitam o distanciamento e o respeito dos ignorantes a quem as profere e conferem fama de doutos a quem assim se expressa. Mas o seu alcance ou conteúdo é absolutamente nulo.

Para os exegetas da cultura fica a dúvida se foi o terramoto que fez sobressair o papel do marquês ou se esta catástrofe bloqueou a sua acção, no sentido de fazer reformas muito mais profunda que alterariam por completo as estruturas culturais do pais. A questão surge sempre porque a cultura política social, económica e cultural iniciada por ele, não criou escola e após a sua destituição assistiu-se ao fenómeno que em linguagem freudiana se designa pelo regresso dos recalcados.

Das muitas medidas que tomou, algumas pretendiam acabar com determinados aspectos de imunidade que a igreja católica possuía, sobretudo em relação aos delinquentes, dado os espaços dos templos serem também zonas francas para albergue de certo tipo de criminosos, onde a lei secular não se atrevia a entrar. Aí gozavam de plena imunidade! Imaginem o que seriam aqueles lugares frequentados por este tipo de gente, como as constituições sinodais nos revelam e os negócios negros que ai se faziam à conta de roubos e tráficos de determinadas mercadorias. Os espaços deviam de ser comparáveis aos Casais Ventosos da actualidade onde até se permitiam construir barracas para viverem. A sociologia do crime tem muito que estudar em Portugal, e em Alcobaça nunca se ouviu falar sobre a história da sua criminologia.

A nota que hoje publicamos é o original de uma carta enviada pelo Marquês de Pombal ao abade do mosteiro e expressa medidas que o governo de Sebastião Carvalho e Melo tomou a seguir ao terramoto, para limitar a acção criminal dos que nele se acoutavam. Penso que a carta seria uma norma para todos os espaços religiosos do pais.

Na sociedade do antigo regime as cumplicidades entre a igreja e determinado tipo de crimes são muitas. Além dos aspectos daqueles espaços religiosos serem de protecção para homiziados. O delito de contrabando foi praticado por algumas ordens religiosas devido ao monopólio que tinham de certo tipo de comércios, provenientes de colónias na América latina, África, Índia como por exemplo a companhia de Jesus. Em Espanha, França, Inglaterra e Itália, este tipo de investigações há muito que não são nenhuma novidade e são um meio mais de se conhecer as estruturas e o dia da sociedade do antigo regime. A ordem de Cister segundo creio tinha domínio sobre os portos da Nazaré e S. Martinho. No século XVII e XVIII a grande mercadoria de contrabando era o tabaco.

Cópia de uma carta que em nome de sua majestade mandou ao N.Rmo. o secretário de Estado Sebastião e José de Carvalho

Sua majestade com o urgente motivo da devassidão , e que contra as suas leis, e ordens e contra antigos forais e estabelecimentos das alfândegas destes reinos se tem escandalosamente repetido o delito de contrabando; buscando-se asilo para ele até em alguns conventos e casas religiosas: para mais eficazmente obviar um crime tão e prejudicial ao seu real serviço, e a o bem público dos seus vassalos: foi servido acrescentar as suas providencias que antes havia dado sobre esta matéria, proibindo e ordenando ao mesmo tempo ; não é por via de jurisdição; e mas sim de direcção e de necessária defesa dos seus vassalos, e de conservação e do bem comum dos seus reino: que nem ainda nos conventos e casas religiosas se recolhão e os ditos contrabandos e os contrabandistas, que os fazem: e quem nos casos de contravenção e possam os ditos conventos e casas religiosas, onde se recolherem os mesmos contrabandos e contrabandistas ser buscados não só pelo juiz conservador geral da junta de comercio; mas também pelos outros ministros criminais, perante quem se denunciarem os contrabandos, para fazerem as oportunas apreensão nas mercadorias descaminhadas, e nas pessoas dos descaminhadores: casos nos quais os eclesiásticos que houverem dado favor aos ditos contrabandos; serão pela primeira vez exterminados quarenta léguas fora dos lugares em que os tais casos sucederem; pela segunda vez removidos para a distancia de oitenta léguas dos mesmos lugares e pela terceira vez serão lançados fora destes reinos, como incorrigivelmente prejudiciais ao bem comum deles, e ao sossego publico, que resulta observância das leis , a que os mesmos eclesiásticos costumes e devem de dar os mais louváveis exemplos. e tudo o referido manda S. Majestade participar a V. Pe. Rma. esperando da religiosidade e do zelo de V.Pe. Rma. que assim o fará observar inviolavelmente a todos os seus súbditos e muito especialmente aos prelados locais; declarando-lhes expressamente que serão eles os responsáveis nos casos de recolherem nas casas e conventos da sua administração os referidos , ou quais quer outros criminosos com o escandalo que resultaria da contravenção não só deste aviso; mas de todos os outros que ao governo ao governo da religião de V. Pe. Rma. se tem feito sobre esta matéria em repetidos actos desde o reinado do senhor dom Pedro segundo até agora os quais avisos V.Pe. Rma. mandará renovar com este nos livros dos registos modernos de todas as casas da sua filiação para se excitar assim melhor observância do conteúdo neles”.

A carta vem de Belém com datado de 25 de Novembro de 1757. e é assinada por Sebastião José de Carvalho e Melo. e dirigida ao D. abade da congregação de S. Bernardo” B.N.L. Cod. Nº. 720. Folha 19 (reservados)
António Delgado: in semana cisterciencse 1999.

18 comentários:

papagueno disse...

Infelizmente ainda h� algumas promiscuidades entre a igreja e certas m�fias. J� para n�o falar da amizade do Vaticano com certas ditaduras.

(.) disse...

eu caro António,

O principal problema destes seus textos é o anacronismo que deles transpira. O trabalho não se faz assim. Acontereram muitas coisas depois do iluminismo! Este seu elogio de Pombal não é surpreendente se tivermos em conta o que vem escrevendo aqui sobre a vida monástica. Muitos fizeram (e ainda fazem hoje) o elogio dos heróis da Bastilha, dos bolcheviques da Revolução Vermelha, de Estaline, Pinochet, Franco, Salazar e tantos outros déspotas e ditadores, mais ou menos iluminados, cujas "revoluções" trouxeram ao mundo aquilo que hoje todos conhecemos. Na descrição que faz de Pombal, ao jeito panegírico, ignora todo o lado negro deste senhor das luzes. E esquece que em política a ocasião faz o estadista. Basta recordar o lado bom do terramoto de 1755 para Marquês de Pombal. E que o diga o contemporâneo Putin que tando deve a essa (in)feliz "eclosão súbita" do terrorismo na Tchechénia...

Eu acredito não ser possível desligar as instituições do seu tempo. Você fala-nos agora de lutas que tiveram lugar há mais de dois séculos em Portugal, e que no seu essencial até foram justas. Era urgente derrubar o absolutismo, como foi também urgente derrubar neste país há 33 anos o regime instituído pelo Estado Novo. Só que esquece que estamos em regime republicano vai para um século, e que até o Salazar foi um "produto" da república, tal como Hitler o foi do socialismo alemão, e Napoleão o tinha sido da república francesa. Tudo governantes ditos populares. E apenas cito, como sabe muito bem, alguns exemplos. Esquece também que em Portugal nunca existiu um verdadeiro regime liberal, e que desde o Ancién Régime o idealismo sempre sucumbiu à Razão , neste país a que o António teima em chamar "provinciano" e de “labregos”, ingorando por completo o fracasso mundial de todos os projectos dessa modernidade herdeira das Luzes. E elogia Pombal passando por cima destes "pormenores" todos. Deixe-me dizer-lhe com sinceridade: o mundo que temos hoje devemo-lo ao iluminismo. Venceram, portanto. Tiveram a sua primazia os ideais do cartesianismo, do laicismo mais ou menos iluminado, do positivismo geométrico e lógico, do racionalismo, etc., cuja vertente mais primitiva exala agora destes seus textos. É pois estranha a sensação que sinto ao lê-los. Napoleão no vazio da sua vida espiritual procurou Maquiavel, Hitler recorreu a Nietzche, os nossos lusitanos do Partido Republicano agarraram-se a Descartes. Mas o vazio teima em persistir. O que é que eu como cristão, tenho a ver com isso? Porque razão hei-de ter de pagar (e muito caro, entenda-se) pelo vosso constante frenessim, pela vossa sede de experiências legislativas e de engenharia social que há mais de dois séculos nos vêm conduzido para a lama? De Rousseau a Kant, de Descartes a Voltaire, de Marx a Rawls, não conseguísteis descobrir uma escatologia, um sentido para as vossas vidas? Ora a conclusão para mim é fácil: não adianta persistir nos mesmos erros.

O anacronismo é evidente: Pombal, valha-me Santo Deus! E a arrogância emerge (não sua eventualmente, mas a de todos aqueles que pensam como você e que são hoje neste país as falanges de apoio dos partidos com assento parlamentar, todos eles!). O povo pode escolher o sistema de governo que entender, desde que seja republicano! Ou mais popularmente: o meu filho quer queira quer não há-de ser bombeiro voluntário! Veja só, meu caro António: quantos republicanos e “liberais” foram já capazes de pedir desculpa aos seus povos pelos erros que cometeram, e que não foram assim tão poucos? João Paulo II passou o seu pontificado a fê-lo, por todos nós, cristãos.

Só espero que você acabe um dia por ver esta Verdade. Para sua salvação!

Deste seu,

Valdemar Rodrigues

ANTONIO DELGADO disse...

Caro Papagueno, Pois sim sobretudo a questão do banco Ambrosiano que nunca foi esclarecida ou o porque do apoio a certos regimes totalitarios. E no caso da igreja católica portuguesa, quando o proprio papa a critica é porque alguma coisa não vai mesmo bem. ... Pior que os cegos são aqueles que não querem ver.

Um abraço.
António

Zé Povinho disse...

Interessante o texto e curioso um dos comentários. O Marquês, enquanto político, foi um homem esclarecido (para a época) e decidido, que tinha um propósito e planos definidos, o essencial para uma época que foi o pós-terramoto. Como político deve ser julgado, e mesmo que com alguns excessos, conseguiu ter uma acção decisiva na reconstrução e no regresso à normalidade. Pecou, como muitos outros políticos antes e depois dele, ao não se afastar no tempo certo, e quando a normalidade já tinha sido assegurada.
Quanto à igreja, não teço considerações sobre religião, porque acho que em quase todas elas há coisas (mensagens) boas, mas o factor humano, os seus líderes, têm muitas culpas no cartório, no passado e mesmo no presente, como todos sabemos.
O factor humano nestas coisas, com todos os defeitos que temos, é sempre o calcanhar de Aquiles das instituições.
Abraço do Zé

ANTONIO DELGADO disse...

Caro (.)… presumível Valdemar Rodrigues.

temo que mais uma vez não tenha entendido o teor da postagem mas está a tempo de a ler com mais atenção para não confundir dados e em consequencia fazer conclusões precipitadas...quanto ao resto continua a fazer-me rir e olhe que não me rio facilmente.
Estará concerteza ao corrente das afirmações do papa sobre a igreja católica em Portugal.


Cordialmente
António Delgado

Jorge Casal disse...

CAro António,
Há hoje uma visão romântica da vida monástica que leva a pensar que, dentro dos muros dos conventos, era só pureza, oração, bondade e rectidão. Esquece-se que o conceito moderno de «vocação religiosa» podia não existir. Ia-se para o convento para fugir ao trabalho assalariado, à miséria económica, ao previsto abandono na velhice e às previsões de doenças sem assistência. No «mundo» (na vida secular) não havia protecção social nenhuma contra a pobreza, a doença, a velhice, o desemprego, o abandono familiar, a orfandade, etc. O convento era um reduto de «alta protecção», a todos os níveis. Ainda nos anos 50 e 60 do séc. XX se ia para os conventos para superar as previsões de miséria. Um frade era um privilegiado, «um senhor», um príncipe, face à dureza das condições do meio social que envolvia o convento.
Sobretudo, não esqueçamos que, desde a Idade Média até ao sec. XIX, os conventos também eram o local onde os pais depositavam os filhos/filhas que eles deserdavam, ou 1) porque vigorava o sistema do morgadio (só um filho/filha herdava o património) ou 2) porque, sendo o património escasso, «não chegava para todos». Então, alguns tinham de ir para um dos inúmeros mosteiros (os pais é que decidiam qual deles tinha esse destino, e qual o mosteiro... e não se podia desobedecer aos pais)..Depois havia as filhas aí postas à força para as contrariar nas suas escolhas matrimoniais. Os mosteiros de mulheres eram sobretudo sítios de sequestro das raparigas desobedientes. Isso aparece em toda a literatura do passado
. Pelo efeito destes vários factores, no séc. XVIII 10 % da população portuguesa residia nos conventos. A fuga do convento era punida com prisão, excomunhão e banimento. O frade «egresso» (fugido) tornava-se um vadio anónimo que ia engrossar as quadrilhas de ladrões de estrada. Conclusão: um convento era um sistema de protecção social contra a miséria, a doença e a velhice para uns, um destino inelutável para outros, e uma prisão para a maioria. Também havia muitos delinquentes que ingressavam «nas ordens» para fugir à justiça. (não havia Polícia Judiciária como hoje nem Interpol... ) enquanto os conventos não podiam ser investigados pelas autoridades policiais ou civis).
A partir destas condições sociais, um mosteiro era um refúgio de inúteis, preguiçosos, frustrados, réprobos, com - como é evidente - algumas «almas boas» pelo meio. Não admira que também houvesse traficantes de toda a ordem. A vida no interior não era «pera doce»: os coluios, as tramoias e as manigâncias de uns contra os outros, tanto os havia nas aldeias como nos mosteiros. Um convento podia ser um saco de gatos, um ninho de cobras ou um cesto de lacraus.
Desde os sécs XVII.-XVIII, a vida monástica entrou em decadência acelerada. Os frades já não viviam exclusivamente nos mosteiros. Muitos passavam as noites nas tabernas e no fado. Muitos passavam os dias nas casas particulares, auto-nomeavam-se «educadores ou confessores da mocidade» ou dos ricos, das suas senhoras ou filhas, etc. E, se os da casa que não aceitassem o confessor intruso, eram denunciados à Santa Inquisição como… «luteranos» (facílimo levar alguém à fogueira!). Outros vagueavam pelas ruas das cidades, inclusivamente a provocar os (melhor: as) transeuntes. Ou, ainda, percorriam o País (dum mosteiro a outro) usando as estalagens (sem pagar) ou assaltando as propriedades. Enfim, para não me alongar sobre este sub-mundo de parasitas, proponho a leitura dos «relatos de viagens» dos escritores estrangeiros, nos sécs. XVII e XVIII, publicados pela Biblioteca Nacional («Série: Portugal e os Estrangeiros») no que eles se referem aos frades e ao clero.
Espero que os românticos defensores da pureza monástica me apontem meia dúzia de monges de Alcobaça - só meia dúzia, desde a fundação até ao fecho - que se tenham notado pela sua santidade.. mas a verdadeiramente cristã, incontestada, sem mácula, a do amor ou abnegação ao próximo...

Um abraço
Jorge

(.) disse...

Afonso Costa não teria feito melhor que o Jorge Casal. Parabéns!

(.) disse...

Fica, a propos, um texto de um grande amigo meu, por sinal não católico, e que reflecte aquilo que deveria ser hoje o debate nomal e civilizado sobre estes assuntos. Para que o António possa continuar a rir-se, o que é bom para o ânimo e para a saúde, dir-lhe-ei que, talvez num arrebatamento pavloviano, visto saber que muitos leitores deste blog são alcobacenses, a sua abordagem a este assunto da Igreja é talvez a adequada à concepção (errada) que faz daqueles que o lêem. Ficar-lhe-ia bem actualizar-se um pouco, pois já não estamos no século dezanove nem em 1910.

Aqui vai, pois, o texto publicado hoje no Sobre o Tempo que Passa pelo meu querido amigo José Adelino Maltez:

_____________

Apesar de não conseguir obter adequado "nihil obstat", não posso deixar de referir o puxão de orelhas que o Papa deu ao nosso episcopado, acusando-o de não cumprir os ditames do concílio do Vaticano II e insinuando excessivo clericalismo. Assim, se encerrou a semana de visitação dos bispos lusitanos aos corredores, salas de audiência e gabinetes do governo universal daquela entidade que a si mesmo se decreta como a Santa Madre Igreja e que assume os respectivos fiéis como o dilecto povo de Deus, capaz de missionar os gentios, infiéis, heréticos e demais agentes das trevas, da desgraça e do pecado.


É evidente que não sou católico e que até nem escondo alguns laivos de tradicional liberalismo anticlerical, tal como sou um inequívoco adepto de uma aliança de homens de boa vontade, entre o humanismo católico e o humanismo laico, bem longe dos que pretendem enforcar o último padre nas tripas do último papa. Portanto, não posso deixar de referir que as críticas agora expressas pelo minucioso e hierárquico aparelho do Vaticano, o tal que é capaz de escrever a palavra da encíclica, ou de concluir o formidável processo burocrático das beatificações e santificações, vieram ao encontro do óbvio.


Julgo que os nossos bispos, que não seguem as teses de Lord Acton e de D. António Alves Martins, contra a infalibilidade papal, nada poderiam dizer se a NATO criticasse a desorganização e a mentalidade das nossas forças armadas, ou se o comissário Almunia continuasse a mandar palpites contra as previsões dos nossos ministérios das finanças e da economia. Por outras palavras, tanto Sócrates como D. José Policarpo estão sujeitos à supranacionalidade de repúblicas maiores, cujos aparelhos lhes podem passar atestados de incompetência.


As declarações de Bento XVI sobre a nossa desorganização eclesiástica e o consequente problema de mentalidade, são menos do que a atitude do rei de Espanha, ao mandar calar Hugo Chávez, na cimeira ibero-americana do Chile, onde Cavaco e Sócrates saudaram os dez por cento da Galp no buracão do poço Tupi, ao largo das costas da Terra Brasil, dita de Santa Maria.


Por mim, fiquei apenas impressionado com a hipótese de Nuno Álvares Pereira ser finalmente canonizado, impedindo que a ASAE venha a fechar a Igreja de Campo de Ourique, hereticamente dita do Santo Condestável, embora seja de lamentar a circunstância de os três pastorinhos não conseguirem suficiente cunha de D. Saraiva Martins para subirem ao altar. Que nisto de santos e santinhos, andamos pior do que nas taxas de desemprego e de inflação, e tanto o FMI como a UE não fazem previsões de rápido crescimento na sagrada congregação.


Aliás, há quem desconfie da hipótese de alguns dos nossos santos serem mesmo portugueses. Santo Antoninho é reclamado por Pádua e Prodi, o São Francisco Xavier é definitivamente basco, mesmo sem ameaças da ETA, e a própria Rainha Santa, com tantos problemas de adultério, do plantador do pinhal de Leiria, não deixa de ser aragonesa.


O Santiago, que era matamouros, ficou-se na Galiza e, para nos ajudar na reconquista e na resistência, tivemos que pedir ajuda à aliança luso-britânica e invocar São Jorge. De São João de Deus e de São João de Brito, apenas resta a memória de duas igrejas lisboetas, a Santa Maria Adelaide, lá para os lados de Gaia, ainda não teve direito a carimbo do Vaticano, a Soror Maria Alcoforado é o preciso contrário dos mandamentos da lei de Deus e até o bom Padre António Vieira foi vítima da Inquisição. Por outras palavras, restam-nos outros encontros imediatos com a divindade, da Senhora da Rocha à Senhora de Fátima, embora nenhum papa tenha feito peregrinação a Carnaxide.


Porque até a aparição de Ourique, com as cinco chagas do escudo nacional, foi injustamente considerada como "fake" pelos historiadores dominantes. Cá por mim, pouco dado a hóstias e a consagrações, resta-me comemorar, muito patrioticamente, o dia de Todos os Santos, antes de passar para o dos Fiéis Defuntos e o natal pagão. Ainda bem que o Vaticano veio dar razão a alguns críticos lusitanos da lusitana clericalidade. Nem todos os que não fazem parte da secção portuguesa deste povo de Deus querem repetir o erro da imagem supra.


Nós, que também lemos "Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República" (Lisboa, Grifo, 2002), "Nas origens do apostolado contemporâneo em Portugal - A 'Sociedade Católica' (1843-1853)" (Braga, 1993) e "A Igreja no tempo - História breve da Igreja Católica" (Lisboa, 1978), de D. Manuel Clemente, apenas desejamos que, do Porto, venha o impulso para que os homens de boa vontade não caiam nas habituais rasteiras dos congreganismos e dos anticongreganismos, de má memória.

Jose Gonçalves disse...

Bom dia a todos

Não me querendo meter neste assunto porque não me sinto capaz de o fazer como vejo aqui ser feito,sempre deixo uma pergunta que me anda a baralhar.
Súbitamente, anda-se a falar muito de monges e mosteiros. Porque será?
Andarei enganado?
Um abraço a todos.
José Gonçalves

Fragmentos Culturais disse...

Pois eu fiquei sem saber... porque será!?
Nem tinha dado pelo facto de se andar a falar muito de monges e mosteiros!

No entanto, a Ordem de Cister é uma das ordens religiosas mais antigas!

Voltarei para me informar melhor...

Boa-noite!

C Valente disse...

Narrativa regada de história , ontem , tive a ler o suplemento do "Expresso" dedicado a Alcobaça
Saudações amigas

ANTONIO DELGADO disse...

Caro Zé Povinho,
O Marques foi sem dúvida, um homem importante e não tenho a menor duvida que tinha e teve excessos. Desde pequeno que me familiarizei com uma estampa sobre a condenação dos Tavoras, no colégio dos irmãos Maristas onde andei em Lisboa. A estampa estava num quadro grande, na parede ao lado da minha carteira. Tinhas as cenas terrificas da matança publica de parte da família dos Tavoras . Não pode imaginar o meu terror ao estar sempre a ver as cenas da estampa e a imaginar a dor dos sacrificados... era terrível. O Marques e a questão dos Távores sempre estiveram presentes em mim. Este caso horrendo onde se cruzam Sexo, Poder, Intriga, Perversão Intelectual continuam a ser quase um tema tabu para os historiadores...
Concordo com a ideia que as pessoas são o verdadeiro calcanhar de Aquiles....até mesmo para aquilo que afirmei no parágrafo anterior.
Um abraço
António

ANTONIO DELGADO disse...

Caro Jorge,
Gostei muito do teu texto: retrata bem o carácter do frade.
Tenho de emprestar-te o Garcia Mercadal se ainda não conheces.
Um abraço

ANTONIO DELGADO disse...

Caro (.)...presumível Valdemar Rodrigues!
Não sabe como lhe agradeço as recomendações e os reparos feitos. É caso para dizer o que devo à sua generosidade, altruísmo e dedicada preocupação... Agradeço a informação sobre as pessoas, em Alcobaça, lerem o que aqui escrevo: nem sabia nem tinha dado conta.
Bem haja ...e valha-me Deus!
Cordialmente
António

ANTONIO DELGADO disse...

Mas nesta terra nunca se falou de outra coisa senão em Monges e mosteiro. Cada vez que estas referencias não saiam nos jornais ou se ouçam na rádio as pessoas ficam tediosas! É a lei do mercado quem mais ordena.

ANTONIO DELGADO disse...

Caro JOSÉ,
Mas nesta terra nunca se falou de outra coisa senão em Monges e mosteiro. Cada vez que estas referencias não saiam nos jornais ou se ouçam na rádio as pessoas ficam tediosas:obviamente que a lei do mercado vence...pela procura!

ANTONIO DELGADO disse...

Caro Fragmentos Culturias,

...Fala-se porque faz parte da identidade local. Por curiosidade permita-me a questão... é da zona?

Em Alcobaça fala-se um dialecto que não se fala em mais lado nenhum: é o Fradesco.

um abraço
António

ANTONIO DELGADO disse...

Caro C.Valente

é mesmo assim como diz. Normalmente não compro os jornais nacionais mas a sua informação Aguçou-me a curiosidade.

Um abraço
António