terça-feira, janeiro 20, 2009

SOBRE GUERRA (continuação)


A memória das guerras e a forma como ela é monumentalizada (a), ensina-se às crianças, regista-se dentro da cultura de uma comunidade e do sistema de sociabilização que a perpetua no tempo como parte caracterizadora da cultura humana.
Na actualidade ganhou novos moldes com o neo-advento da imagem e o poder que lhe advém associados às últimas novidades técnicas em termos da sua captação e difusão, em conjunto com os meios informativos de massas recorrentes das mesmas novidades técnicas. Neste propósito, a imagem, como as referidas novidade técnicas, convergem para formar modelos e vivências sociais homogéneas em culturas, cidades e continentes díspares, para dar corpo à tal “Aldeia Global” vaticinada por McLuhane[1] em 1963.
Mesmo antes da arte na época da sua reprodutibilidade técnica[2], as obras de arte ocupavam o lugar da realidade. Na actualidade, a imagem digital veio substituir esse espaço da anterior imagem única e perene, como era caracterizada no passado antes da invenção da fotografia. A imagem reproduzida exerce até um maior efeito de persuasão, em que não é alheia a excessiva iconização e uniformização do mundo para se viver ou entender. Em termos históricos, a sucessão da corrente do tempo na soma das representações plásticas da guerra formam um tesouro documental sem igual sobre a evolução social e material das civilizações. E pode afirmar-se que a guerra tem acompanhado o desenvolvimento da arte e, em cada civilização e cultura ela tem o seu deus.
Dos baixos-relevos às estátuas, dos frescos murais aos quadros, ela está sempre presente sem cessar. A pé, a cavalo ou sobre barcos, com flechas, lanças, espadas, espingardas entre indivíduos ou grupos que se vão matar uns aos outros. Sejam quais forem as religiões[3] ou poderes em confrontação, a guerra é um tema constante das manifestações da vida julgado digno de dar perenidade.

Muitas peças de arte fazendo referência à guerra tornaram-se clássicas, consagraram-se em verdadeiros hitos artísticos e de uma época e da história de arte. Apesar da incongruência, a história da arte nunca definiu este tipo de representação, como um género artístico, como fez com o retrato e as naturezas mortas. Podemos afirmar que, apesar da quantidade de exemplos acumulados, nenhumas destas obras serviam para satisfazer um gosto estético, nem nenhuma intimidade particular. Serviam essencialmente para satisfazer a sedução das multidões eram recriações benéficas ao poder. Tinham a missão de catequizar e fazer propaganda desse mesmo poder.

(a) Muitos dos monumentos nacionais, tais como o mosteiro de Alcobaça e da Batalha, não passam na sua essencia de meros monumentos comemorativos a guerras ganhas por reis de Portugal.

[1] Understanding Media. Echeverria; Javier em Telópolis. Aborda igualmente este mesmo tema que McLhuan mas ultrapassando nas suas análises os âmbitos económicos como fizera o sociólogo canadiense.
[2] Foi Walter Benjamin que terá inventado o termo para designar uma arte que não era autêntica e única, como aquela que era feita antes da invenção da fotografia ou litografia.
[3] Na guerra e a sua relação com as religiões encontramos posturas extremas e irreconciliáveis, mesmo dentro de escolas e seitas de uma mesma religião (chiitas e sunistas). Por contraste, no Hinduísmo, Budismo e Janaismo, existe uma recusa total à guerra, ou ela aceita-se como sendo inevitável. Na maior parte das religiões a guerra é aceite, como facto religioso e sagrado. À volta de guerra santa ou religiosa fazemos a seguinte observação: Nas religiões antigas, Gregos, Romanos, Celtas, Germanos, Astecas e outras, os deuses são implicados nas guerras. Invocam-se antes que se parta para a contenda. Oferecem-se sacrifícios para implorar o seu favor. Neste sentido a guerra é entendida como uma atitude sagrada, iniciada com uma prática ritual, o que supõe uma aceitação divina da mesma. Nalgumas religiões monoteístas o deus é apresentado como um grande guerreiro que se presta a lutar à frente do povo. Tal sucede com o deus dos hebreus no antigo testamento. A causa de uma guerra é causa de Yavé que fará vingança aos seus inimigos. A guerra Santa é um conceito básico no Islão (Jihad). No cristianismo observamos numerosas guerras santas, as Cruzadas. Nesta mesma religião e em termos de arte existe uma enorme plêiade de figuras do Altar que são/foram adorados como “deuses de guerra”: Santiago Mata Mouros, Santiago, S. Jorge e, em Portugal, o nacional catolicismos de índole fascista como aquele que apoiou o regime de Salazar , fez de Nuno Alvares Pereira, igualmente um Santo de altar. Algumas igrejas tem-no como ídolo e, em Campolide, existe mesmo uma igreja designada de Igreja de S. Condestável. A igreja católica nunca reconheceu a este militar medieval a condição de santo.

4 comentários:

A. João Soares disse...

Caro António,
A humanidade não tem endeusado o amor, a paz a harmonia, mas sim a guerra, o ódio, o desejo de vingança,a violência em todos os estratos sociais.
A religião tem contribuído para isso. Caim matou Abel. O Antigo testamento está repleto de imagens de violência. Depois, a ideia infeliz de representar Cristo (que pregou o amor, o bom entendimento) num crucifixo, foi o cúmulo dessa loucura da violência do homicídio, do desejo de vingança da sociedade que o matou. Uma imagem que não atrais e assusta as crianças mais sensíveis no primeiro contacto com ela.
Felizmente isso está a ser revisto, como mostra o padre de Paialvo, perto de Tomar que retirou todos os crucifixos substituindo-os por uma imagem do Cristo ressuscitado, a enviar-nos a imagem de Amor e da salvação. Amai-vos uns aos outros. Perdoai as ofensas a quem vos tiver ofendido. Dai a outra face a quem vos der uma bofetada. É esse o Deus que devemos adorar e de quem devemos seguir as mensagens e mostrar às crianças.
Só fazendo um esforça para alterar estas visões doentias, conseguiremos que a Nova Era seja melhor do que a actual.
Um abraço
A. João Soares

Desprafonildo I disse...

QUE FAZER?
(pois, vamos a isso!)
Um abraço

Arte e Liberdade disse...

Pobre do mosteiro, que é de uma idade intramuros, pré-Goya.
Não sei porquê, não me sai da memória a imagem da foto em Hiroshima, anos após a Guernika, da cúpula retorcida e no irmão cego em muletas. No meio talvez encontre a foto final de Kapa e um mostruoso redor de silêncio e de cobardia, a que nem posso chamar de exterco, por amor à espécie dos porcos genuínos.

Arte e Liberdade disse...

... a proósito de receitas simbólicas... o condestável ficcionado com S.Sebastião em época já de cercas. Uma espécie de Productis Fictitie à época. Olha não digo mais porque tou embirrado!